Exposição destaca edições raras de Machado de Assis

Em cartaz na USP até 22 de novembro, mostra enfatiza a variedade e a amplitude da carreira do escritor

Na exposição Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades, o visitante é orientado por legendas colocadas ao lado de cada item – Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

O leitor de Machado de Assis, considerado o maior romancista brasileiro, tem um encontro inusitado com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba e outras obras-primas da literatura brasileira. E, além de ver edições raras dessas obras, vai conhecer o cotidiano do jornalista Machado de Assis escrevendo para periódicos de sua época.

A dimensão sensível do contista brilhante e do crítico respeitado está na exposição Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades, em cartaz na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP. A curadoria é do professor Hélio de Seixas Guimarães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que, há três anos, vem desenvolvendo pesquisas sobre Machado de Assis no acervo da BBM.

“A decisão de realizar esta exposição veio do contato com esse material e pela constatação de que se trata de um conjunto não só importante, mas extraordinário e absolutamente singular”, observa Guimarães. “Esse conjunto é composto não só de primeiras edições, mas de exemplares únicos, colecionados por Rubens Borba de Moraes e José Mindlin em décadas de criterioso garimpo. Ao contrário do bibliômano machadiano que se contenta com a posse solitária do livro, esses bibliófilos compartilharam seus achados, hoje disponíveis ao público.”


A exposição revela a grande variedade e a amplitude da trajetória de Machado de Assis como escritor.Machado de Assis – Foto: Academia Brasileira de Letras / Domínio Público



Na seleção para a exposição, o curador procurou destacar a variedade e a longevidade da produção do escritor. “O acervo da BBM inclui cerca de 400 itens, entre livros e periódicos diretamente relacionados a Machado de Assis.” Guimarães destaca que o conjunto merece ser conhecido pelo potencial que tem para a realização de novos estudos sobre a obra do escritor. “A exposição revela a grande variedade e a amplitude da trajetória de Machado de Assis como escritor, que começa na década de 1850 e se estende até o ano de sua morte, 1908, compreendendo textos dos mais variados tipos: teatro, poesia, conto, romance, crítica, correspondência etc. Também mostra uma seleção dos periódicos com os quais Machado colaborou e nos quais publicou grande parte dos seus escritos, antes de recolher uma parte deles em livro.”

Ler Machado de Assis percorrendo a exposição é um movimento curioso. Não é como folhear as páginas, mas as edições raras estão ali protegidas nas vitrines para serem observadas. Uma viagem interessante para o leitor, que irá conhecer Memórias Póstumas de Brás Cubas em uma edição de 1896 pela H. Garnier. Ou a edição da novela Casa Velha e do conto Uma por Outra, com a introdução da biógrafa e crítica machadiana Lucia Miguel Pereira. As duas histórias saíram em 1885 e 1897, respectivamente.

Os visitantes não precisam ser bons leitores de Machado de Assis para percorrer a mostra. O curador procurou orientar o público com cuidado. Esclarece, através de legendas, a importância e o histórico de cada item. “Há textos de apresentação que indicam o modo de organização do material. Ao lado dos livros e materiais expostos, há legendas que destacam a importância e a singularidade dos itens”, esclarece.

Quando lemos um texto dele, logo fazemos ligações com o que vivemos no momento presente, tanto do ponto de vista individual como coletivo.
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Os periódicos estão nas vitrines laterais – Foto: Marcos Santos/USP Imagens











No centro da exposição, o visitante se depara com as primeiras edições de vários gêneros: poesia, teatro, romance, crítica, conto. Os periódicos em que o jornalista Machado de Assis colaborou estão em uma das vitrines laterais. “Eles são fundamentais para compreender a dinâmica de sua obra”, justifica Guimarães. “Foi em jornais e revistas do Rio de Janeiro, São Luís do Maranhão e também em Nova York que muitos textos saíram pela primeira vez, antes de encontrarem o formato consagrador do livro.”O professor Hélio de Seixas Guimarães: Biblioteca Brasiliana da USP possui cerca de 400 itens diretamente ligados a Machado de Assis – Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

Na outra vitrine lateral, há os escritos que se transformaram em livros. Uma das surpresas da exposição é ver os livros traduzidos para o inglês. Importante lembrar que Machado de Assis é um dos romancistas mais lidos, estudados e traduzidos no exterior. “Os escritos de Machado têm sido cada vez mais editados no exterior, principalmente a partir das traduções de seus livros para o inglês, que ganharam impulso na década de 1950”, diz o professor Guimarães. “Até então, poucos títulos tinham sido traduzidos para várias línguas, como o espanhol, o francês, o italiano e o alemão, mas eram iniciativas esporádicas.”

Guimarães esclarece que a obra de Machado passou a ter alcance internacional assim que começou a ser traduzida mais regularmente nos Estados Unidos e na Inglaterra. “Hoje, seus nove romances estão traduzidos para o inglês, alguns com várias traduções. E agora todos os 76 contos que ele publicou em livro estão disponíveis também em inglês. Está em curso um projeto de tradução de todos os seus contos para o espanhol, a cargo de uma tradutora que vive no México. E seus romances e contos mais conhecidos hoje estão traduzidos para praticamente todas as línguas modernas.”

Para os que desejam conhecer e descobrir a obra de Machado de Assis, o professor repete a orientação que dá aos seus alunos: “Além de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro e dos contos antológicos, como O Alienista, A Cartomante e Missa do Galo, sempre indico aos alunos a leitura de textos menos conhecidos, como o conto O Relógio de Ouro, o romance Ressurreição e poemas como Potira. Acho importante compreender os processos que permitiram a Machado chegar aos resultados que obteve nos textos que o consagraram.”

E, quando o novo leitor descobrir Machado de Assis, verá um escritor de todos os tempos. “Quando lemos um texto dele, logo fazemos ligações com o que vivemos no momento presente, tanto do ponto de vista individual como coletivo. É um escritor que, com a passagem do tempo, parece se tornar cada vez mais vivo e atual. Às vezes, terrivelmente atual”, conclui Guimarães.

A exposição Machado de Assis na BBM: Primeiras Edições e Raridades está em cartaz até 22 de novembro de 2018, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h30, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo, telefone 11 2648-0310). Entrada grátis.

Por Leila Kiyomura -
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